Por Daiane Santiago
Imortalizado em verso pelo escritor Jorge Amado, o Restaurante Maria de São Pedro, um dos mais antigos da cidade, se confunde com o passado e o presente de Salvador. Testemunha ocular do percurso social da cidade, o estabelecimento tem resistido às tragédias e oposições das mais diversas à sua permanência em um dos locais mais cobiçados e apreciados da capital, o Mercado Modelo – tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Sua imponente estrutura neoclássica, estilo arquitetônico surgido durante o neoclassicismo, movimento cultural europeu do fim do século XVIII, contrasta com a simplicidade do seu atual dono, Luís Domingos, o filho caçula de Maria de São Pedro. Uma trajetória que inclui disputas políticas, incêndios, homenagens e algumas animosidades contornadas pela serenidade de seus proprietários, assim tem sido a emocionante vida desse senhor de 89 anos.
A história dos restaurantes suscita a curiosidade de pesquisadores por retratar de um ângulo específico a vida das sociedades. A historiadora Rebecca Spang, no livro “A invenção dos restaurantes” destaca que os primeiros exemplares surgiram de uma rivalidade entre a culinária e a medicina. E que só a partir da revolução francesa foi que os estabelecimentos que comercializavam alimentos passaram a ser legalizados, até então eram vistos como ilegais. Outra versão é a de que no século XVI, um parisiense conhecido por Boulanger abriu seu estabelecimento, e colocou a seguinte frase: venid ad me ommis qui stomacho laboratis, ego restaurado vos, que significa: vinde a mim, vós que trabalhais, e restaurarei vosso estômago.
Atravessando um oceano e cinco séculos de história, nenhum termo poderia ser mais apropriado para o Restaurante Maria de São Pedro, do que “restaurar”, frente à sua capacidade de se adaptar aos eventos de uma cidade peculiar como Salvador. “Os restaurantes são importante ponto de identificação cultural, são locais em que as pessoas se encontram em torno de um prazer em comum em Salvador isso é bem característico”, comentou o antropólogo Vilson Caetano.
Apenas 14 anos separaram a dona do restaurante a santo-amarense Maria de São Pedro da escravidão, que foi abolida em 13 de maio de 1888, ela nasceu no dia de São Pedro, 28 de junho de 1901, daí a origem do seu nome. A quituteira teve uma importância singular para a divulgação da Bahia a partir da gastronomia. Especialista em iguarias como efó (caruru de folhas), xinxim de galinha, moqueca de peixe, moqueca de camarão, vatapá, caruru, Maria ganhou notoriedade. Dado ao estrondoso sucesso dos seus quitutes e a sua visão vanguardista, virou um referência da gastronomia nacional. Com a sua habilidade, obteve sucesso, que mesmo após a sua morte, é traduzido pelos milhares de turistas que o restaurante recebe por ano.
Maria desde a infância teve presente as matrizes africanas traduzidas e vivenciadas pela sua forte relação com sua avó materna Dona Josefa, Yalorixá – sacerdotisa e chefe de um terreiro de candomblé. De acordo com seu filho Luís Domingos, começou a trabalhar bem cedo vendendo comida na Feira do Sete, região do Porto de Salvador. “Maria de São Pedro era uma rainha da Bahia, feita de porte, bondade e arte”, trecho do poema feito pelo amigo Jorge Amado, que na época já frequentava o local há mais de trinta anos. Mãe de 12 filhos era daquelas quituteiras que sabia cozinhar para grande número de convidados. No currículo constam, os banquetes de posse de Getúlio Vargas, que a convidou para fazê-lo quando assumiu a Presidência da República e dos 400 anos da cidade de São Paulo, além de clientes ilustres, entre políticos e intelectuais.
Uma missão
O longo silêncio ao ser questionado sobre a importância da sua mãe representa bem o quanto aquela figura feminina permeou e permeia a vida de Luís Domingos, 74 anos, seu filho caçula. Há 50 anos à frente do empreendimento ele, que perdeu a mãe aos 18 anos, demonstra orgulho por ser herdeiro do seu legado. “O que mais lembro é do sabor, ela fez uma comida que, tirando as filhas dela, ninguém mais consegue fazer”. Com um sorriso de quem estava revivendo o momento, Luís contou que, aos 14 anos, ele foi o primeiro a receber a notícia quando vieram convidá-la para fazer o banquete de posse de Getúlio Vargas. “Eu abri a porta, tinham três homens esperando, ao falarem do que se tratava, eu entrei correndo para contar, foi aquela alegria. E lá foi ela para São Paulo”.
Notadamente uma pessoa afetuosa, o comportamento de Luís faz jus ao verso que foi escrito pelo amigo e concorrente Camafeu de Oxóssi, figura ilustre da Bahia, “A doçura de Maria renasceu na figura de Luiz Domingos seu filho, seu discípulo”. A concorrência de Camafeu de Oxóssi deve-se ao fato de que ele manteve o restaurante, que leva seu nome, ao lado do Maria de São Pedro. Mesmo com a morte de Camafeu em 1994, aos 78 anos, o Camafeu de Oxóssi, (sob nova direção) e o Maria de São Pedro, continuam sendo concorrentes. É possível perceber logo na chegada ao local a disputa entre as anfitriãs pela a atenção dos frequentadores do Mercado Modelo.
Luis, que durante muito tempo alimentou o sonho de ser cantor, logo entendeu que tinha como missão preservar e lutar para manter vivo o nome e o legado da sua mãe. O olhar longínquo transparece a resiliência com que teve que lidar com as adversidades, após dois incêndios vividos no Mercado Modelo. O incêndio que ocorreu em 1968, de acordo com Domingos, o mais violento, foi providencialmente apagado pela água do mar, e ele atribui isso à proteção de Deus à sua família. Após isso, houve conflitos políticos pela posse do local, o empreendedor relata o episódio em que sua irmã teve uma fervorosa discussão com o então prefeito da cidade Antônio Carlos Magalhães (ACM) acerca do retorno do Maria de São Pedro após a reforma do Mercado. Pelo Mercado Modelo ser de reponsabilidade da prefeitura, ele conta que essa sombra, em torno desse desentendimento do passado, ainda ronda a permanência do Maria de São Pedro no Mercado Modelo e ressurgiu com a última eleição. “Com essa alternância de poder, através da eleição do Neto de ACM para a prefeitura, ficamos apreensivos”, relatou.
Maria das Graças, 51 anos, neta de Maria de São Pedro, há mais de 25 anos, comanda a cozinha do restaurante. De acordo com Maria, não chegou a ter contato com a avó, aprendeu tudo com a mãe. “Claro que o fazer do alimento depende muito da áurea da pessoa, mas os ensinamentos que nós recebemos ficam perpetuados e influencia diretamente no sabor, o importante é fazer com amor”, declarou.
Para o jornalista Josimar Melo, “os restaurantes surgem para matar a fome de convívio”, e o Maria de São Pedro, por sua característica cosmopolita, tem a capacidade de agregar povos. A argentina Ana Lia revela que chegou a Salvador em um transatlântico que tem como um dos destinos à cidade, “É a segunda vez que venho aqui, a vista é muito linda, e a moqueca é excelente”, elogiou.
As turistas de Minas Gerais, Doracy Carlos e Regina Moreira, ambas aposentadas, contaram que estavam já há alguns dias na Bahia, e que era inadmissível irem embora e não comerem uma moqueca, “Eu comi mais do que deveria, a comida é diferente, é difícil você achar um pirão como esse, o autentico pirão baiano, você percebe a tradição no fazer e no servir”, relatou Doracy. Outro mineiro, o engenheiro Magno Moreira, compartilhou da mesma opinião das conterrâneas, “Pedi moqueca, inicialmente, achei que estava muito grande a porção, mas acabei comendo mais do que deveria”.
Após passar uma tarde no restaurante, experimentar os sabores e o acolhimento dos anfitriões Luís Domingos e Maria das Graças, olho para o salão lotado, o mar ao fundo e toda aquela atmosfera que, como dizem, “só se vê na Bahia”, chego à conclusão que Maria de São Pedro ainda vive.

