Por Daiane Santiago
Há um ano, quando chegou ao
aniversário de 89 anos da sua avó, com o cabelo crespo, solto, pintado de acajú
– um tom de vermelho escuro, Daiane Silva, pedagoga, de 34 anos, diz ter
exorcizado de vez os seus problemas com o cabelo crespo, herdado da mãe. Ela
conta que já utilizava o cabelo assim no dia a dia, mas a sensação de
apresentar para a família inteira foi diferente “O dia em que eu enfrentei meus
parentes foi emblemático, o olhar da família quando discrimina é o mais
violento, quando sua família te encoraja você se sente mais forte”.
Daiane representa uma legião de mulheres que,
alheias aos apelos comerciais do “cabelo ideal”, têm feito uma revolução
silenciosa nos padrões de beleza, e, sobretudo, uma revolução de dentro para
fora. A pedagoga afirma que a sua geração foi muito covarde em quebrar esses
padrões, ela conta que só veio usar o seu cabelo ao natural há alguns anos.
“Hoje eu chego à sala de aula e as minhas alunas estão com a cabeça raspada,
porque estão fazendo Big Chop (grande corte), que consiste em cortar toda a
parte alisada do cabelo e deixar só a raiz natural”, explicou.
Para quem hoje encontra uma gama
de produtos e salões voltados exclusivamente para os cabelos crespos, é difícil
imaginar, mas essa ainda é uma conquista gradual, que vai além da aceitação social,
muitas mulheres ainda enfatizam a auto aceitação. Maria José, de 46 anos, sabe
bem o que é passar por um processo de aceitação da própria condição física. “Eu
tive de raspar a cabeça devido a um câncer, e fiquei sabendo que não poderia
mais utilizar nenhum tipo de química, foi aí que tive de reconstruir os meus
cachos, que, de certo modo, simbolizam a reconstrução da minha vida”, afirmou.
Segundo o último Censo do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 50% das pessoas
brasileiras se identificam como pretas ou pardas; ou seja, mais da metade da
população do país se reconhece como negra. E o comércio já percebeu o poder de compra
desse público. Com uma robusta indústria voltada para esse nicho específico, as
possibilidades estão aí para todos os perfis de clientes. As opções vão desde salões
maiores e mais conhecidos da grande mídia a pequenos locais escondidos que só
se descobre por indicação, quase que uma exclusividade. A verdade é que hoje
tem para todos os gostos.
É importante ressaltar que essa
nova concepção não atinge só aos negros. “Quando eu entrei naquele ambiente me
senti como se tivessem feito algo para mim, pensado para mim”, conta Aline
Santiago, 33 anos, que sempre viveu em conflito com os cabelos. “Sou branca,
mas o meu cabelo não era igual ao da minha mãe, liso. Porém sempre tive certeza
que eu não queria alisá-lo”. Aline é uma das clientes que se amontoam para
serem atendidas pela rede de salões Beleza Natural de Zica Assis, ex-
faxineira, atualmente reconhecida pela Forbes, conceituada revista americana,
como uma das empreendedoras mais influentes do Brasil.
Mas há quem discorde dessa
produção de “cacheadas” em larga escala. Alê Estrela, 41 anos, cabeleireira,
especializada em cabelos crespos, há 12 anos, afirmou que “eu não gosto é desse
determinismo, temos de enfatizar a beleza que existe nas diferenças, caso
contrário podemos instaurar também a ditadura dos cachos”. A cabeleireira contou
que tem preferência pelos cabelos naturais, mas deixa suas clientes livres para
decidir. “Esse movimento elevou a auto estima das mulheres que tentavam se
enquadrar em um padrão irreal e inatingível, passando por procedimentos
exaustivos e que muitas vezes não eram exitosos”, comentou.
Alê afirma que o cabelo tem sim
uma importância social, e enfatiza que esse movimento não apareceu agora, ele é
divulgado e fortalecido hoje, sobretudo pelas redes sociais. Para a cabeleireira
os cabelos tem papel essencial nas lutas relacionadas à desconstrução de um ideal
estético. “Na verdade nós devemos ter a liberdade de escolher, seja cacheado,
liso, crespo”, finaliza.

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