Às vezes fico me perguntando quando
desisti de ser atriz ou historiadora e resolvi que seria jornalista. Quando
tento me recordar da fatídica decisão, logo me vem à cabeça Clark Kent e o Planeta Diário, HQ que virou seriado e me
acompanhou nos domingos ociosos da adolescência. Realmente esforço-me para
lembrar se partiu daí o meu interesse pela profissão. Mas o que recordo mesmo é
que eu achava o cabelo da jornalista Lois Lane – paixão secreta do emblemático Superman, impecável.
De certo a arte imita a vida,
hoje o que é o jornalista senão um Super-herói contemporâneo? Ir a uma entrevista de emprego é estar pronto
para se esbarrar com inúmeras exigências profissionais que realmente caberiam
na ordem do dia de uma figura sobre-humana. O engraçado é que muitas vezes pedem
tudo, menos o bom jornalismo. As previsões de um passado não tão distante do
saudoso Gabriel Garcia Marques, parecem se cumprir sem cerimônias.
Perdi a conta de quando estava em
uma aula chata, entre um bocejo e outro, e a única coisa que me chamava à
atenção era quando o professor dizia do alto da experiência: ser jornalista é
saber um pouco de tudo. Não imaginava
que essa máxima fosse ser levada tão ao sério no mundo contemporâneo. Reflito que lugar teria a produção em massa
de Tom Ford criador da gigante do automobilismo ou mesmo o operário de Tempos
Modernos, que imortalizou Charles Chaplin na repetitiva rotina da fábrica. Onde
estariam esses profissionais com habilidades tão específicas no mundo atual?
Hoje não é mais sobre saber fazer
bem e com rapidez apenas uma coisa, mas sim, sobre acumular várias habilidades,
sem necessariamente, ser especialista em uma. Entre inúmeras funções
desempenhadas pelo mesmo profissional, que tempo de fato sobra para o bom texto
ou para o bom jornalismo? Não, não estou falando aqui de uma reportagem de
capa, que renda cartas entusiasmadas dos leitores, estou falando do básico e
essencial de uma notícia.
Para o jornalista romântico é custoso
admitir, mas talvez essa não seja mais a prioridade. Várias podem ser as explicações
para a necessidade de um profissional multifacetado, jornais impressos que agonizam
e precisam “enxugar” a folha de pagamento, assessorias cheias de metas de mídia
espontânea. No extremo oposto, um jornalismo online que insiste em dar a mesma notícia
freneticamente mesmo que o leitor já há tenha visto pelo menos umas dez vezes no
último minuto.
Essa é uma realidade dos nossos
tempos e quem não se adéqua a ela pode optar por engavetar o diploma – sem
problemas, para o STF ele não vale nada mesmo – e cair no ostracismo. Ou em um
ato de bravura e empreendedorismo abandonar essa nova lógica de produção como
fez Clak Kent (mais uma vez a arte imitando a vida). Contrariado com a linha
editorial, saiu do Planeta Diário, virou blogueiro e se equilibra entre salvar
o mundo e alguns freelas. Isso é garantia de sucesso? Bom, ele é o Superman.
