terça-feira, 19 de maio de 2015

Há vagas para jornalistas. Ops! Super-heróis...


Às vezes fico me perguntando quando desisti de ser atriz ou historiadora e resolvi que seria jornalista. Quando tento me recordar da fatídica decisão, logo me vem à cabeça Clark Kent e o  Planeta Diário, HQ que virou seriado e me acompanhou nos domingos ociosos da adolescência. Realmente esforço-me para lembrar se partiu daí o meu interesse pela profissão. Mas o que recordo mesmo é que eu achava o cabelo da jornalista Lois Lane – paixão secreta do emblemático Superman, impecável.

De certo a arte imita a vida, hoje o que é o jornalista senão um Super-herói contemporâneo?  Ir a uma entrevista de emprego é estar pronto para se esbarrar com inúmeras exigências profissionais que realmente caberiam na ordem do dia de uma figura sobre-humana. O engraçado é que muitas vezes pedem tudo, menos o bom jornalismo. As previsões de um passado não tão distante do saudoso Gabriel Garcia Marques, parecem se cumprir sem cerimônias.

Perdi a conta de quando estava em uma aula chata, entre um bocejo e outro, e a única coisa que me chamava à atenção era quando o professor dizia do alto da experiência: ser jornalista é saber um pouco de tudo. Não imaginava que essa máxima fosse ser levada tão ao sério no mundo contemporâneo. Reflito que lugar teria a produção em massa de Tom Ford criador da gigante do automobilismo ou mesmo o operário de Tempos Modernos, que imortalizou Charles Chaplin na repetitiva rotina da fábrica. Onde estariam esses profissionais com habilidades tão específicas no mundo atual?

Hoje não é mais sobre saber fazer bem e com rapidez apenas uma coisa, mas sim, sobre acumular várias habilidades, sem necessariamente, ser especialista em uma. Entre inúmeras funções desempenhadas pelo mesmo profissional, que tempo de fato sobra para o bom texto ou para o bom jornalismo? Não, não estou falando aqui de uma reportagem de capa, que renda cartas entusiasmadas dos leitores, estou falando do básico e essencial de uma notícia.

Para o jornalista romântico é custoso admitir, mas talvez essa não seja mais a prioridade. Várias podem ser as explicações para a necessidade de um profissional multifacetado, jornais impressos que agonizam e precisam “enxugar” a folha de pagamento, assessorias cheias de metas de mídia espontânea. No extremo oposto, um jornalismo online que insiste em dar a mesma notícia freneticamente mesmo que o leitor já há tenha visto pelo menos umas dez vezes no último minuto.

Essa é uma realidade dos nossos tempos e quem não se adéqua a ela pode optar por engavetar o diploma – sem problemas, para o STF ele não vale nada mesmo – e cair no ostracismo. Ou em um ato de bravura e empreendedorismo abandonar essa nova lógica de produção como fez Clak Kent (mais uma vez a arte imitando a vida). Contrariado com a linha editorial, saiu do Planeta Diário, virou blogueiro e se equilibra entre salvar o mundo e alguns freelas. Isso é garantia de sucesso? Bom, ele é o Superman.

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