sábado, 4 de outubro de 2014

O dia que pensei em desistir do PT

Por Daiane Santiago

Já pensei em desistir do PT, no auge do escândalo do mensalão, passou pela minha cabeça até mesmo ter vergonha de ter feito campanha para Lula. Toda a vida cotidiana contribuía, realmente para que eu jogasse o PT naquele canto ingrato e obscuro da memória. Mas hoje, 05 de outubro de 2014, dia de eleição, pensei em fazer uma reflexão dos dados do governo petista. Optei por observar apenas as pessoas ao meu redor. Eu quis tão somente, na periferia onde moro, fazer uma análise in loco, sem citar programas sociais específicos, mas sim, algumas peculiaridades do meu contexto social.

Escolhi, para começar, um fato que me pareceu emblemático. De acordo com relatório da ONU, o Brasil, pela primeira vez, não consta da lista mundial de miséria e subnutrição, o chamado Mapa da Fome. Bem, como não entendo de relatórios e nem sempre pode se confiar nos dados. Puxando pela memória, na comunidade em que moro, notei que uma boa parte daqueles pirralhos maltrapilhos, desnutridos, descalços, hoje, adolescentes, estudam, aparentemente se alimentam bem, e quem diria, tem até um trocadinho pra comprar doces no buteco da minha mãe antes de ir à escola.

Outro dado me chamou a atenção, os resultados de uma pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam para uma redução do déficit habitacional no país. Devido a uma absoluta crise de credibilidade desses órgãos de pesquisa, novamente, procurei respostas na minha realidade. Lembrei que outro dia uma amiga, que não via há tempos, comentou comigo no facebook, que havia conseguido a sua tão sonhada casa, após mais de sete anos morando de aluguel. Me veio à memória outra amiga que diversas vezes tentou financiar imóvel em bancos privados e nunca havia conseguido, finalmente, hoje ela tem sua casa própria, não através desses bancos.

Mas ainda assim, escrevendo esse texto, não estava convencida. Daí joguei no google a palavra “cotas”, e me deparei com essa declaração da pesquisadora e doutora em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Teresa Olinda  Caminha Bezerra. “Em 1997, apenas 2,2% de pardos e 1,8% de negros, entre 18 e 24 anos cursavam ou tinham concluído um curso de graduação no Brasil. Pessoas estavam impedidas de estudar em nosso país por sua cor de pele ou condição social.”

Voltando ao meu exercício mental de trazer para a minha realidade, nesse caso ficou fácil, pois a minha vida é o meu maior exemplo. Estudante de escola pública, negra, condição social desfavorável. Hoje, estudante cotista de jornalismo, em faculdade particular renomada de Salvador, bolsista integral, através de desempenho no ENEM. A história é muito mais longa do que isso, tentei resumir.

Caí em mim, me curei da crise existencial, não estou sendo conivente com uma corja de corruptos, obviamente sei que muito precisa mudar. Me senti seduzida pelos empolgantes discursos, de garantia das liberdades individuais de Eduardo Jorge e Luciana Genro. Em contrapartida, não acredito também, que Marina seja mal intencionada. Mas ainda assim, o que posso garantir, por conhecimento de causa, é que nenhum partido em todos os tempos fez pela população de baixa renda o que o governo do PT fez nos últimos dez anos. Isso nem o mensalão, nem os escândalos apagarão. Entretanto, se for o momento de mudar o rumo dessa história, as urnas dirão, afinal, felizmente, estamos em uma democracia.

sábado, 27 de setembro de 2014

Ajustes

Por Daiane Santiago
Há muito tempo que nada me cai bem. Nem roupas, nem homens, nem amigos... 

Entre as plumas e paetês de Mitta Lux

Fotografia: Milena Fahel

Por Daiane Santiago e Milena Fahel

Era uma noite chuvosa de quinta-feira e tínhamos uma missão: fazer um
ensaio fotográfico com Jean Carlos, a drag queen Mitta Lux. Vou me abster de
contar os pormenores da chegada a sua residência, mas o fato é que, enfim,
chegamos. Tratava-se de uma escola, na avenida Vasco da Gama e, ao fundo
havia uma casa, na qual residia Jean. Entramos e fomos convidadas pela
assistente dele, Samine, a ir até o cômodo onde ele se montava1
que faria na Creperia La Bouche, no antigo Beco da Off, na Barra.

O ar de curiosidade era compartilhado entre nós duas. Adentramos o quarto
e, entre perucas, uma infinidade de maquiagens e saltos dos mais altos e
coloridos, encontramos Jean. Curiosamente, se maquiava ao som de Aline
Barros. Recebeu-nos ainda como Jean - como ele mesmo diz: “precisa ir
encarnando o personagem” -. Ao longo do ensaio percebemos que o ato de
maquiar é muito simbólico na apropriação do fazer artístico e incorporação da
personagem.

Quase que instintivamente passamos a fazer perguntas enquanto fotografávamos. Era como se conhecer a história de Jean nos ajudasse a
compor o ensaio. Todas as informações sobre a vida pessoal e profissional
dele pareciam nos guiar na criação e composição do trabalho. A dificuldade de acompanhar o simples ato de maquiar tornava o trabalho artístico, em certa medida, tenso. A fotografia foi se construindo ao passo que Jean avançava na transformação.

Os componentes do cenário traziam ricos elementos visuais. Estes foram apropriados pelo nosso processo artístico. Durante o ensaio, no auge dos seus 24 anos, Jean falou com a propriedade de uma pessoa que já viveu muito a vida. Ele contou que Mitta foi se construindo aos poucos, sozinha. “Quando vi já estava com o cabelo vermelho e a saia de tule”, brincou.

Em meio a transformação, já no papel de Mitta, ela muda a música para Maria Bethânia. Segundo Mitta, Betânia é sua musa inspiradora e toma a
cena. Dublando com uma perfeição indiscutível, observamos e tentamos levar
aqueles detalhes para a fotografia. Em alguns momentos a concepção de Pareyson de que o artista reconhece o êxito da obra de arte no momento em que ela acontece tornou-se contundente. Alguns resultados foram comemorados entusiasticamente ao longo do processo. De repente Jean, aquele que encontramos na chegada, já não estava mais ali. Mitta, caracterizada de Marilyn Monroe, foi quem passou a conduzir nosso trabalho.

Chovia copiosamente, mas, como estava programado, nós fomos com Mitta até a Creperia La Bouche para acompanhar a apresentação. Sem apoio técnico, a artista conduziu com outra drag queen, Valerie O’rarah, a programação do espetáculo. A chuva e a quantidade de movimentos de Mitta dificultaram os primeiros clicks, mas as adversidades foram sendo dribladas ao longo do processo. Com a plateia lotada, Mitta interpretou performaticamente vários artistas do cenário nacional e internacional.

Após longas horas de apresentação despedimo-nos dela, ainda glamourousa
como quando chegou. Saímos do local com a sensação de ter chegado (ao
menos perto) do tão ecoado poder artístico.

Mais fotos Milena Fahel, acesse:
http://www.lurvely.com/photographer/123987807_N07/

sábado, 20 de setembro de 2014

Nem tanto, nem tão pouco

Por Daiane Santiago

Não entendo a aversão aos meios termos, eles são tão maleáveis e sinceros. Ninguém é tão verdadeiro, que nunca tenha mentido, nem que seja aquela “mentirinha” que não faz mal. Ninguém é tão aplicado, que algum dia não tenha resolvido se dedicar ao ócio. Ninguém é tão avesso a modas, que nunca tenha entrado em uma. Ninguém é tão despojado, que já não tenha perdido algum tempo da vida com vaidades. Ninguém é tão fiel, que nunca tenha pensado, poxa e se... Ninguém é tão culto, que não tenha errado uma palavra absurdamente comum. Ninguém é tão politicamente correto, que já não tenha sido injusto. Ninguém é tão esclarecido, que já não tenha, infelizmente, cometido preconceitos (quem disser que nunca cometeu nenhum, me desculpe, é hipócrita). Poderia passar a vida inteira dando exemplos de que não somos dos fins, mas sim dos meios. Em matéria de humanos, nada, e digo nada, é definitivo. Não falo de personalidades fragilizadas, mas daqueles que acreditam na sua realidade e defendem ferrenhamente sem ser pretensiosos. Que são capazes de mudar o discurso ainda que pareça contraditório. Acho que era isso que o poeta Raul queria dizer com a sua "metamorfose ambulante”. Nada. Absolutamente nada se encerra em sua própria verdade. Nenhum conceito é tão hermético que não possa ser modificado e repensado. Acredite sempre na efemeridade das suas “verdades absolutas”. Para não sermos tão errantes na vida, talvez precisássemos nos permitir errar mais, errar sempre.


Beleza pura

Nada é mais bonito que o vento confirmando a sua existência invisível  ao flertar com os galhos de uma árvore.

Eu escrevo!

Por Daiane Santiago
Quando escrevo, sinto-me relevante e imponente diante da liberdade que me é conferida pela escrita. Cada texto é um desafio novo e aprendizado novo. (...) sei que esta arte é difícil e delicada, mas me arrisco sempre, pois esse para mim é o melhor dos riscos.