Já pensei em desistir do PT, no auge do escândalo do mensalão, passou pela minha cabeça até mesmo ter vergonha de ter feito campanha para Lula. Toda a vida cotidiana contribuía, realmente para que eu jogasse o PT naquele canto ingrato e obscuro da memória. Mas hoje, 05 de outubro de 2014, dia de eleição, pensei em fazer uma reflexão dos dados do governo petista. Optei por observar apenas as pessoas ao meu redor. Eu quis tão somente, na periferia onde moro, fazer uma análise in loco, sem citar programas sociais específicos, mas sim, algumas peculiaridades do meu contexto social.
Escolhi, para começar, um fato que me pareceu emblemático. De acordo com relatório da ONU, o Brasil, pela primeira vez, não consta da lista mundial de miséria e subnutrição, o chamado Mapa da Fome. Bem, como não entendo de relatórios e nem sempre pode se confiar nos dados. Puxando pela memória, na comunidade em que moro, notei que uma boa parte daqueles pirralhos maltrapilhos, desnutridos, descalços, hoje, adolescentes, estudam, aparentemente se alimentam bem, e quem diria, tem até um trocadinho pra comprar doces no buteco da minha mãe antes de ir à escola.
Outro dado me chamou a atenção, os resultados de uma pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam para uma redução do déficit habitacional no país. Devido a uma absoluta crise de credibilidade desses órgãos de pesquisa, novamente, procurei respostas na minha realidade. Lembrei que outro dia uma amiga, que não via há tempos, comentou comigo no facebook, que havia conseguido a sua tão sonhada casa, após mais de sete anos morando de aluguel. Me veio à memória outra amiga que diversas vezes tentou financiar imóvel em bancos privados e nunca havia conseguido, finalmente, hoje ela tem sua casa própria, não através desses bancos.
Mas ainda assim, escrevendo esse texto, não estava convencida. Daí joguei no google a palavra “cotas”, e me deparei com essa declaração da pesquisadora e doutora em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Teresa Olinda Caminha Bezerra. “Em 1997, apenas 2,2% de pardos e 1,8% de negros, entre 18 e 24 anos cursavam ou tinham concluído um curso de graduação no Brasil. Pessoas estavam impedidas de estudar em nosso país por sua cor de pele ou condição social.”
Voltando ao meu exercício mental de trazer para a minha realidade, nesse caso ficou fácil, pois a minha vida é o meu maior exemplo. Estudante de escola pública, negra, condição social desfavorável. Hoje, estudante cotista de jornalismo, em faculdade particular renomada de Salvador, bolsista integral, através de desempenho no ENEM. A história é muito mais longa do que isso, tentei resumir.
Caí em mim, me curei da crise existencial, não estou sendo conivente com uma corja de corruptos, obviamente sei que muito precisa mudar. Me senti seduzida pelos empolgantes discursos, de garantia das liberdades individuais de Eduardo Jorge e Luciana Genro. Em contrapartida, não acredito também, que Marina seja mal intencionada. Mas ainda assim, o que posso garantir, por conhecimento de causa, é que nenhum partido em todos os tempos fez pela população de baixa renda o que o governo do PT fez nos últimos dez anos. Isso nem o mensalão, nem os escândalos apagarão. Entretanto, se for o momento de mudar o rumo dessa história, as urnas dirão, afinal, felizmente, estamos em uma democracia.


