sábado, 20 de setembro de 2014

Nem tanto, nem tão pouco

Por Daiane Santiago

Não entendo a aversão aos meios termos, eles são tão maleáveis e sinceros. Ninguém é tão verdadeiro, que nunca tenha mentido, nem que seja aquela “mentirinha” que não faz mal. Ninguém é tão aplicado, que algum dia não tenha resolvido se dedicar ao ócio. Ninguém é tão avesso a modas, que nunca tenha entrado em uma. Ninguém é tão despojado, que já não tenha perdido algum tempo da vida com vaidades. Ninguém é tão fiel, que nunca tenha pensado, poxa e se... Ninguém é tão culto, que não tenha errado uma palavra absurdamente comum. Ninguém é tão politicamente correto, que já não tenha sido injusto. Ninguém é tão esclarecido, que já não tenha, infelizmente, cometido preconceitos (quem disser que nunca cometeu nenhum, me desculpe, é hipócrita). Poderia passar a vida inteira dando exemplos de que não somos dos fins, mas sim dos meios. Em matéria de humanos, nada, e digo nada, é definitivo. Não falo de personalidades fragilizadas, mas daqueles que acreditam na sua realidade e defendem ferrenhamente sem ser pretensiosos. Que são capazes de mudar o discurso ainda que pareça contraditório. Acho que era isso que o poeta Raul queria dizer com a sua "metamorfose ambulante”. Nada. Absolutamente nada se encerra em sua própria verdade. Nenhum conceito é tão hermético que não possa ser modificado e repensado. Acredite sempre na efemeridade das suas “verdades absolutas”. Para não sermos tão errantes na vida, talvez precisássemos nos permitir errar mais, errar sempre.


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