sábado, 27 de setembro de 2014

Ajustes

Por Daiane Santiago
Há muito tempo que nada me cai bem. Nem roupas, nem homens, nem amigos... 

Entre as plumas e paetês de Mitta Lux

Fotografia: Milena Fahel

Por Daiane Santiago e Milena Fahel

Era uma noite chuvosa de quinta-feira e tínhamos uma missão: fazer um
ensaio fotográfico com Jean Carlos, a drag queen Mitta Lux. Vou me abster de
contar os pormenores da chegada a sua residência, mas o fato é que, enfim,
chegamos. Tratava-se de uma escola, na avenida Vasco da Gama e, ao fundo
havia uma casa, na qual residia Jean. Entramos e fomos convidadas pela
assistente dele, Samine, a ir até o cômodo onde ele se montava1
que faria na Creperia La Bouche, no antigo Beco da Off, na Barra.

O ar de curiosidade era compartilhado entre nós duas. Adentramos o quarto
e, entre perucas, uma infinidade de maquiagens e saltos dos mais altos e
coloridos, encontramos Jean. Curiosamente, se maquiava ao som de Aline
Barros. Recebeu-nos ainda como Jean - como ele mesmo diz: “precisa ir
encarnando o personagem” -. Ao longo do ensaio percebemos que o ato de
maquiar é muito simbólico na apropriação do fazer artístico e incorporação da
personagem.

Quase que instintivamente passamos a fazer perguntas enquanto fotografávamos. Era como se conhecer a história de Jean nos ajudasse a
compor o ensaio. Todas as informações sobre a vida pessoal e profissional
dele pareciam nos guiar na criação e composição do trabalho. A dificuldade de acompanhar o simples ato de maquiar tornava o trabalho artístico, em certa medida, tenso. A fotografia foi se construindo ao passo que Jean avançava na transformação.

Os componentes do cenário traziam ricos elementos visuais. Estes foram apropriados pelo nosso processo artístico. Durante o ensaio, no auge dos seus 24 anos, Jean falou com a propriedade de uma pessoa que já viveu muito a vida. Ele contou que Mitta foi se construindo aos poucos, sozinha. “Quando vi já estava com o cabelo vermelho e a saia de tule”, brincou.

Em meio a transformação, já no papel de Mitta, ela muda a música para Maria Bethânia. Segundo Mitta, Betânia é sua musa inspiradora e toma a
cena. Dublando com uma perfeição indiscutível, observamos e tentamos levar
aqueles detalhes para a fotografia. Em alguns momentos a concepção de Pareyson de que o artista reconhece o êxito da obra de arte no momento em que ela acontece tornou-se contundente. Alguns resultados foram comemorados entusiasticamente ao longo do processo. De repente Jean, aquele que encontramos na chegada, já não estava mais ali. Mitta, caracterizada de Marilyn Monroe, foi quem passou a conduzir nosso trabalho.

Chovia copiosamente, mas, como estava programado, nós fomos com Mitta até a Creperia La Bouche para acompanhar a apresentação. Sem apoio técnico, a artista conduziu com outra drag queen, Valerie O’rarah, a programação do espetáculo. A chuva e a quantidade de movimentos de Mitta dificultaram os primeiros clicks, mas as adversidades foram sendo dribladas ao longo do processo. Com a plateia lotada, Mitta interpretou performaticamente vários artistas do cenário nacional e internacional.

Após longas horas de apresentação despedimo-nos dela, ainda glamourousa
como quando chegou. Saímos do local com a sensação de ter chegado (ao
menos perto) do tão ecoado poder artístico.

Mais fotos Milena Fahel, acesse:
http://www.lurvely.com/photographer/123987807_N07/

sábado, 20 de setembro de 2014

Nem tanto, nem tão pouco

Por Daiane Santiago

Não entendo a aversão aos meios termos, eles são tão maleáveis e sinceros. Ninguém é tão verdadeiro, que nunca tenha mentido, nem que seja aquela “mentirinha” que não faz mal. Ninguém é tão aplicado, que algum dia não tenha resolvido se dedicar ao ócio. Ninguém é tão avesso a modas, que nunca tenha entrado em uma. Ninguém é tão despojado, que já não tenha perdido algum tempo da vida com vaidades. Ninguém é tão fiel, que nunca tenha pensado, poxa e se... Ninguém é tão culto, que não tenha errado uma palavra absurdamente comum. Ninguém é tão politicamente correto, que já não tenha sido injusto. Ninguém é tão esclarecido, que já não tenha, infelizmente, cometido preconceitos (quem disser que nunca cometeu nenhum, me desculpe, é hipócrita). Poderia passar a vida inteira dando exemplos de que não somos dos fins, mas sim dos meios. Em matéria de humanos, nada, e digo nada, é definitivo. Não falo de personalidades fragilizadas, mas daqueles que acreditam na sua realidade e defendem ferrenhamente sem ser pretensiosos. Que são capazes de mudar o discurso ainda que pareça contraditório. Acho que era isso que o poeta Raul queria dizer com a sua "metamorfose ambulante”. Nada. Absolutamente nada se encerra em sua própria verdade. Nenhum conceito é tão hermético que não possa ser modificado e repensado. Acredite sempre na efemeridade das suas “verdades absolutas”. Para não sermos tão errantes na vida, talvez precisássemos nos permitir errar mais, errar sempre.


Beleza pura

Nada é mais bonito que o vento confirmando a sua existência invisível  ao flertar com os galhos de uma árvore.

Eu escrevo!

Por Daiane Santiago
Quando escrevo, sinto-me relevante e imponente diante da liberdade que me é conferida pela escrita. Cada texto é um desafio novo e aprendizado novo. (...) sei que esta arte é difícil e delicada, mas me arrisco sempre, pois esse para mim é o melhor dos riscos.